Em 2023, no Main Event da Triton Poker em Monte Carlo, Nick Petrangelo e Chris Brewer se enfrentaram nos blinds em um confronto fortemente influenciado pelo ICM. Quem liderava no momento era Adrian Mateos, que tinha mais de 30% das fichas em jogo. Petrangelo e Brewer estavam em segundo e terceiro lugares, com stacks médios. Jonathan Jaffe analisou a mão com os dois jogadores.
Jaffe: Então, Nicky, a situação é a seguinte: restam 11 jogadores e tem US$ 135 mil em jogo. Você está no small blind com . Dar limp no pré-flop parece simples e intuitivo – forte demais para dar fold. Você faria raise com mãos parecidas?
Petrangelo: Como temos dois big blinds a mais que o Chris, podemos dar raise um pouco mais frequentemente, embora ainda menos do que em uma situação normal. Quero blefar com mãos que façam o Chris foldar mãos que me dominam na linha “limp-check” (por exemplo, abro 93s e ele folda Q3o e 96o), ou que tenham blockers para os all-ins e 3-bets dele. Dá para dar raise com K8o também, apesar de o call ser mais frequente, mas no geral A-high, K-high, Q-high com kickers fracos são mãos padrão para blefe. Também blefo com mãos suited tipo um ou com cartas baixas.
Jaffe: Você dá limp. O stack efetivo é de 39 bbs. O Chris tem uma mão muito bonita para jogar nos blinds . O que você faria no lugar dele?
Petrangelo: Em condições normais, sem ICM, seria raise. Aqui, o check parece ótimo. Você não pode dar raise com liberdade com os 40% de mãos padrão. Provavelmente nos considerávamos os jogadores mais fortes ainda vivos no torneio, o que também influencia na estratégia, inclinando ambos a jogadas mais passivas. Gosto do check dele.
Jaffe: Chris, o que você acha – é um check simples ou dá pra refletir?
Brewer: Mesmo sem ICM vale a reflexão – acho que com A7s a estratégia é mista. Está claro que em fase avançada de torneio dar raise-call com essa mão seria suicídio. Mas ela é jogável e forte o bastante para que raise-fold seja um desastre. Por outro lado, deveriam existir pouquíssimos limp-reraises com os stacks assim. O stack dele é um pouco maior que o meu e permite que ele jogue mais agressivamente do small blind, o que enfraquece um pouco o limp dele. A7s é claramente uma mão de valor contra o range dele. Então, check é a escolha mais simples e intuitiva, mas já com A8s a decisão seria muito difícil.
Jaffe: O flop vem . O público pode pensar que o range do Nick é mais forte, considerando seu check.
Brewer: Em geral, quando os blinds jogam limp-check e bate um rei no flop, é uma textura favorável para o small blind, porque ele tem muitos que nunca dão raise. E mesmo com ICM, eu dou check com mãos como KTs e até KJs , mas ainda assim acho que é um bordo favorável para ele. Talvez não boa o bastante para c-betar com 100% do range, mas ele definitivamente deve apostar com frequência, tipo 60-70%.

Petrangelo: Meu range de limp é bem amplo, mas ainda forte, porque dou raise com no máximo um terço do que seria um range padrão em chipEV. Apesar de ter vários , ainda quero manter os potes pequenos e não inflar. Vou extrair menos de um e A-high, e em geral diminuir os sizings. Meu check se encaixa bem nessa estratégia.
Jaffe: O Chris tem A-high com um belo backdoor flush draw. O que ele deve fazer?
Petrangelo: Apostar por valor. Se eu der check-fold com 98s, é uma vitória pra ele. Ele também recebe call de muitas mãos piores. E eu, claro, não vou sair dando check-raise louco aqui. Por outro lado, o backdoor torna o check mais atraente. Acho que, no lugar dele, eu jogaria com bem passivamente.
Jaffe: Chris, com quais mãos inesperadas você blefaria aqui?
Brewer: Nada muito criativo – algo off-suited com uma de copas, como ou mão praticamente morta sem nada, tipo . Blefar com uma de copas é bom porque os turns que nos dão par dificilmente completam o flush. Às vezes também precisamos apostar com draws, eles são importantes nos dois ranges.
O problema de jogar de forma muito linear é que os oponentes começam a dar folds absurdos. Se a equidade da pior mão do seu range de aposta for de 20%, esse range fica muito vulnerável ao exploit de overfolds. Por exemplo, se eu sempre aposto com mãos que têm outs, e fundo do meu range for , o Nick pode foldar tranquilamente sem copas. Sem contar que me sobram poucos blefes se as cartas completarem os draws. Por isso, eu preciso misturar com lixo total, pra ter blefes possíveis em qualquer turn.
Jaffe: Chris dá check. O turn é a . Depois do check-check no flop, há chance de você dar check de novo no turn?
Petrangelo: O range dele tem bastante offsuited, que ele dá check no pré e no flop. O mesmo vale pra -. A mesa tem dois flush draws, qualquer e qualquer tem outs para o nuts e devem continuar. Esse é o tipo de board em que até jogadores muito bons têm dificuldade de encontrar blefes se eu der check de novo. Seria preciso começar a blefar com cartas pequenas com uma de paus ou uma de copas, mas duvido que algum de nós realmente jogue assim. No geral, parece uma situação em que é muito difícil ganhar dinheiro dando check.

Jaffe: O pote tem 240.000 fichas. Tem muitos flush draws e straight draws. Você aposta só metade do pote. Explica pra gente.
Petrangelo: Em chipEV, aqui caberiam overbets, com certeza. Mas sob pressão de ICM, quase nunca usamos sizings geométricos, aqueles em que você aposta muito no turn para preparar uma bomba no river. Além disso, o board é muito dinâmico. Em cash games ou nas fases iniciais de torneio, eu pensaria: "depois eu resolvo". Mas na bolha da FT tudo é mais complicado, o padrão de força exigido aumenta, e você precisa evitar ao máximo que o pote cresça sem controle.
Eu posso jogar com dois sizings, 33% e 66%, ou usar só um, como 50%. O principal é escolher as mãos certas com os planos certos.
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Jaffe: Para o Chris, um call simples, não faz sentido dar raise, certo?
Petrangelo: Certo, o range dele dificilmente vai aplicar raise aqui.
Jaffe: Chris, você vence os blefes do oponente e tem outs contra as mãos de valor, então o call é claro?
Brewer: Sim, a decisão é super simples.
Em chipEV, eu poderia pagar aqui até com underpairs, tipo , mas sob ICM, isso vira um fold automático. Ter A-high fraco também não é uma sensação boa, e com , por exemplo, eu provavelmente encontraria um fold, por mais doloroso que seja largar uma mão que vence muitos blefes e ainda tem um gutshot vivo.
Meu range de call, nesse cenário, acaba sendo um , qualquer flush draw, qualquer e qualquer ou . Quer dizer, nem todo Ás – alguns, como , é melhor largar. Mas se for de naipe alto, especialmente ou , você tem que continuar.
Jaffe: No river bate o . Tente se colocar no lugar do Nick.
Brewer: O big blind tem mais flushes. Para o jogador em posição, é bem natural seguir uma linha passiva com backdoor flush draw. O small blind é ajudado pelo fato de o turn ter sido a , e não o , por exemplo, porque o BB raramente aposta com A-high ou Q-high com backdoor.
Mas além dos flushes, o BB tem um monte de top pairs com e – é um range de acerto gigantesco. Então a trinca de reis do Nick ainda tem valor. Não acho que ele possa apostar alto. O fundo da value bet aqui seria algo como . Talvez ele possa ampliar para qualquer , mas aí teria que reduzir bastante o sizing. Encontrar blefes é fácil – qualquer ou com paus, mas sem copas.

Jaffe: O Nick aposta cerca de 65% do pote. Você acha que ele escolhe esse sizing maior por ter o ? Com , ele apostaria menos?
Brewer: Sim, tenho certeza de que o influenciou essa escolha. Mas ainda mais importante foi o – afinal, uma trinca de rei é uma combinação bem forte. O sizing me parece ganancioso. Mesmo em chipEV, grandes apostas não devem ser feitas contra um range com mais flushes. Mas falando da mão dele, ela é forte o suficiente até para esse tamanho. Vou ter muitos calls com mãos piores. Não acho que ele esteja suervalorizando a trinca. Mas estrategicamente, ao ver uma aposta desse tamanho, eu pensei imediatamente que ela deveria ser usada muito raramente.
Um sizing grande só funciona se ele for checkar a maior parte das vezes e, de vez em quando, apostar 75% do pote.
Jaffe: Muitos jogadores, no lugar do Nick, pensariam assim: "preciso apostar bem alto, porque aí posso dar fold tranquilo se tomar raise. Apostar o pote facilita o jogo!" O que você acha disso?
Brewer: Pois é, essa ideia é bem comum na prática, mas no fim das contas esse tipo de jogo queima muito da expectativa de valor. Responder a uma aposta grande é muito fácil. Não parece intuitivo, porque você pensa: "nossa, uma aposta enorme, que horrível, posso perder um potão!" Mas isso são emoções. Estratégica e matematicamente, o jogo fica simples. Quando estou em posição, com um range forte, e recebo uma aposta grande, não preciso inventar nada. Com mãos ruins eu foldo, com mãos boas eu pago ou dou raise.
Jaffe: Nick, o river não foi dos melhores, mas você tem o . Conta pra gente o que passa pela sua cabeça ao ter uma trinca que provavelmente ganha no showdown com mais frequência do que perde. Como você escolhe entre dar check ou apostar? Como decide o tamanho da aposta?
Petrangelo: Eu praticamente nunca vou dar check com uma trinca. A primeira coisa em que penso é: quais são as melhores mãos do meu range e quais aparecem com mais frequência? As melhores mãos são os flushes, e as melhores . Com uma dama que apostou no turn, eu quase nunca vou querer apostar o river. Então o que sobram são flushes, straights, trincas e blefes.
Para straights, flushes e blefes com bons blockers (como ), a frequência de aposta se aproxima de 100%. Para -, eu preciso de um sizing entre 50% e 100% do pote. Nem preciso necessariamente da carta de paus – qualquer trinca serve. Se eu tomar raise, aí penso com quais mãos dou hero call e com quais dou 3-bet blefando. A carta de paus ajuda no hero call.
Jaffe: Você aposta 300.000 num pote de 480.000. É claro que o Chris deve dar raise com o flush nuts. Você acha que dá pra dar raise com todos os flushes?
Petrangelo: Durante a mão, achei que com flushes até seis talvez não fosse necessário dar raise, mas depois pensei melhor: o pote ficou bem pequeno, e já que é possível aplicar um raise que não seja all-in, qualquer flush pode aumentar uns 40% ou 50% do pote. Isso por causa do ICM, porque em chipEV os sizings seriam muito maiores.
Jaffe: Chris, conta como você tomou sua decisão no river. Ter o flush nuts sempre é bom, e você vê uma aposta de 65% do pote.
Brewer: Na hora, achei a decisão nada fácil. Muita gente vai discordar de mim. Quer dizer, claro, eu entendo que tenho que dar raise com o flush nuts, mas com um flush até seis, eu teria só dado call. Por isso o sizing do Nick me pareceu meio exagerado. Entendam, com o ICM, sempre há uma penalidade implícita, e precisamos de mais equidade do que o normal pra investir mais fichas. Isso é básico, o “ABC” do jogo de torneio. Quando eu dou raise por valor, tenho que estar à frente de cerca de 85% do range do oponente. Preciso estar bem à frente. E como eu não tenho full houses, meu range está capado, e os raises por valor são bem escassos no geral.
Mas flush nuts é flush nuts.
Jaffe: Você aumenta para 850.000. O Nick muda de postura bem rápido, o que pode indicar que ele não está pensando em 3-bet. Tenta ver a situação pelos olhos dele.
Brewer: Com a mão que ele tem, 3-betar seria um erro, na minha opinião. Ter a carta de paus é bom pra um blefe inicial, mas ruim pra um reblefe.
Eu estou dando um raise tight. A teoria do poker diz que contra qualquer raise, precisamos foldar uma parte do nosso range de valor. Suponha que a parte mais fraca do meu raise seja um flush de . Isso significa que as mãos que eu vou foldar contra uma 3-bet shove terão a carta de paus. Portanto, pra fazer um 3-bet shove, seria melhor ter en vez de . Faz todo sentido.
Jaffe: Nick, conta por que você mudou de postura tão rápido, sinalizando que não pretendia aplicar um reraise.
Petrangelo: Normalmente, eu decido com antecedência se vou reagir de forma passiva ou agressiva contra uma linha agressiva. Aqui, escolhi uma linha mais passiva. E precisava tentar fazer uma leitura do Chris – entender se ele está blefando demais nessa situação ou blefando de menos, o que o tamanho da aposta pode me ajudar a deduzir, entre outras coisas.
Jaffe: Tomar um raise no river – não importa há quanto tempo jogamos poker – sempre é uma das situações mais raras. Às vezes é difícil organizar os pensamentos. Algum conselho?
Petrangelo: A primeira coisa em que pensei aqui foi: o Chris tem muitos blefes intuitivos com mãos offsuit? Como o jogo dele no flop, turn e river afeta a frequência de blefes e valor? Se ele teve que fazer muito esforço em todas as streets pra chegar a um blefe no river, então nem tem muito o que pensar. O problema é que essa situação surgiu contra um cara mais do que capaz de fazer um movimento agressivo até mesmo nesse cenário.
Call sem a carta de paus nem considero. Com a de paus, o call é lógico, porque bloqueamos o valor. Dar raise com trinca e a de paus não faz sentido. A mão perfeita para blefar contra raise seria : valor contra mãos fortes e um blefe natural contra raise...
Nick dá call e Chris vence um pote de 2 milhões em fichas.

